Continue acompanhando A Melhor Novela de Todos os Tempos do Último Verão.
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O cortejo fúnebre seguia a passos lentos pelas alamedas do cemitério São João Batista, uma imensa e melancólica fileira de pessoas de rostos tristes, apagados e cheios de lágrimas.Era uma tarde triste e extremamente quente. Em meio às pessoas, o caixão, carregado por quatro homens, reluzia ao sol ardente do verão. Estava um calor infernal, o mormaço rescendendo sobre os túmulos, dando um aspecto ainda mais angustiante ao cemitério. Erguendo-se imponente no azul claríssimo do céu, a imagem do Cristo Redentor resplandecia no alto do Corcovado, abençoando de braços abertos a Cidade Maravilhosa.
Estavam ali, caminhando tristemente no cortejo, todas as pessoas que fizeram parte da vida de Cássio, os amigos de colégio, os companheiros de pegas e baladas, os familiares, a mãe toda vestida de preto, torrando ao sol, se abanando sem parar e chorando compulsivamente, o pai gordo que se arrastava com a careca pingando de suor, arfando sem fôlego, o irmão, se deixando levar quieto e ausente, o amigo inseparável, Amon-Rá, no dia mais triste de sua vida, enfim, todas as pessoas que o amavam e o queriam bem vieram dar-lhe o último adeus.
O cortejo enfim chegou ao local onde o corpo seria enterrado. Todos pararam e se ajuntaram, em silêncio, enquanto o padre iniciava o sermão, todos atentos à cerimônia:
- Queridos irmãos, estamos aqui presentes para celebrar a memória deste jovem admirável que acaba de nos deixar. Se esta foi a vontade do Pai, que assim seja, pois nem mesmo uma folha se desprende de uma árvore sem o Seu consentimento...
Começou, então, um vento forte repentino, fazendo as árvores farfalharem, levantando poeira, as folhas secas do chão voando em círculos. O sol escaldante foi encoberto por uma pesada nuvem que anunciava chuva próxima, jogando uma infinita sombra sobre o cemitério.
Era a primeira vez que Amon-Rá sentia a terrível dor de perder um ente querido. O rapaz, sempre com os olhos marejados, olhava para o caixão fechado, ali estava o seu amigo mais querido, o Cássio alegre, louco, aventureiro, destemido, namorador e alto astral, agora inerte, sem vida, em silêncio eterno. A última imagem do amigo lhe veio à mente, entrando no carro, pronto para mais uma corrida, uma corrida fatal em direção à morte. No velório, o caixão não fora aberto, o corpo estava em grande parte carbonizado e Amon-Rá sabia que não suportaria ver a cena.
O que mais lhe doía, e isso talvez o deixasse com o remorso na alma para o resto de sua vida, era o fato de o amigo ter ido embora sem o perdoar. Morreu antes que ele tivesse a chance de explicar o motivo da briga entre os dois, pedir o seu perdão e reatar aquele laço de amizade. Que brincadeira de mau gosto do Destino! Agora que tudo parecia estar bem, que estava se sentindo feliz por ter seu amor de volta e estava prestes a se entender com o amigo, acontece essa terrível e dolorosa fatalidade. Como se a felicidade nunca pudesse ser completa, como se ela fosse apenas uma busca incessante que a gente vai alcançando aos poucos, a conta-gotas, mas nunca completamente. Reconquistou seu grande amor e perdeu para sempre seu único amigo. Que troca injusta e cruel a vida lhe impôs.
Amon-Rá não tirava Cássio da memória um instante. Todos os momentos junto ao amigo lhe passavam em flashes como num filme imaginário. Aquela vida vivida com toda a intensidade, seu jeito irreverente de encarar as coisas, sempre com um humor contagiante, o gosto por emoções fortes e suas atitudes inconseqüentes, a alegria que fazia parte de seu espírito, sua essência permaneceria eterna na lembrança de cada um. Cássio era uma pessoa que gostava de viver, que amava a Vida. Viveu até o último momento fazendo tudo o que gostava e desse na telha, correndo, surfando, se arriscando, curtindo tudo o que pudesse, fazendo sexo sem compromisso, gozando de sua virilidade e se drogando. Talvez fosse justamente por essa sede insaciável de viver que o amigo tivera uma vida tão breve, pensava Amon-Rá em seu profundo silêncio. Talvez ele tivesse exagerado em seus atos, sendo imprudente demais no presente e se esquecendo de que havia um futuro pela frente. Então abusou de tudo que podia e abusou até demais do que não podia. Abusou da sorte, correndo toda semana nos arriscados pegas da madrugada sem nenhuma precaução, movido apenas pela adrenalina espalhada no sangue, pela paixão enlouquecida à velocidade; abusou de seu próprio corpo, ferindo-o e injetando substâncias tóxicas em suas veias, aspirando, fumando e ingerindo componentes que destruiriam gradativamente sua memória e seu corpo. Abusou, e muito,das drogas.
Somente agora Amon-Rá percebia isso. A morte do amigo parecia ter lhe aberto os olhos para a verdadeira realidade. Agora ele enxergava claramente a que caminho trágico levava esse mundo ilusório, fantasioso e traiçoeiro das drogas. Percebia agora que a vida de uma pessoa é extremamente limitada e temos que aprender a não ultrapassar esses limites. O amigo estava completamente drogado enquanto dirigia aquele carro e foram as drogas que o levaram à morte. Agora sim Amon-Rá sabia que era preciso parar, na verdade não deveria nunca ter começado, se livraria de uma vez por todas dessas malditas porcarias antes que também acabasse cavando sua própria cova. Ali, naquele momento, em memória do amigo, jurou para si mesmo que nunca mais usaria drogas na vida.
A voz do padre o despertou, encerrando o sermão:
- ...e que sua alma repouse tranqüila e serena na santa paz do Senhor. Amém!
Amém!
Suspenderam o caixão, prontos para baixá-lo na sepultura. A desesperada mãe desatou uma nova choradeira incontida, se afogando nas próprias lágrimas. Eduardo Palladino tentava confortar os pobres pais angustiados. O irmão Cassiano, chorando, deu um beijo de leve no caixão e murmurou emocionado:
- Vá com Deus, campeão!
Amon-Rá também não se conteve. Chorava amargamente, botando pra fora toda a dor que sentia, recebendo o abraço protetor de Samantha, ali bem juntinho de si.
O caixão bateu pesadamente no fundo do buraco e os homens com as pás nas mãos começaram seu trabalho, cobrindo de terra aquele ser vibrante, extraordinário e surpreendente que ia embora deste mundo sem chegar aos vinte anos.
Nesse momento, um raio, um trovão e a chuva desabou. Chovia uma chuva gostosa e fresca, a primeira depois de tantos dias de verão intenso e calor insuportável, uma chuva vívida e revigorante, refrescando os corpos suados e o ar abafado, saciando a sede das árvores, lavando os túmulos empoeirados e fazendo subir o cheiro agradável de terra molhada.
Amon-Rá observava o caixão sendo engolido pela terra, levando parte de sua vida com ele, levando o cara mais alegre e admirável que conhecera, o grande campeão dos pegas do Recreio, o ídolo de marmanjos e gatinhas, o Relâmpago da Madrugada tinha se apagado para sempre. Amon-Rá não se conformava, era doloroso demais, sua vida jamais seria a mesma. Nunca mais veria seu amigo novamente.
Não suportava mais, precisava sair dali imediatamente.
- Vamos embora – disse para Samantha.
- Vamos.
E se retiraram sem serem notados, caminhando abraçados pelas veredas do cemitério sob uma gostosa chuva de verão.

Continua 2ª Feira
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