Sábado, 26 de Julho de 2008

Melhor do Brasil! Quem, eu?

Tô todo siachando. O Cidão indicou o meu blog para concorrer ao prêmio de "melhor blog brasileiro hospedado no Blogspot". Uia! Cê acha? Mas disso eu já sabia! Haha. Tá, nem tanto, nem tanto...

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Bem, deixa eu explicar mais este meme-promoção-concurso-caça-links. É o seguinte: O blog Usuário Compulsivo criou o concurso que vai premiar com 100,00 em créditos no Google AdWords o melhor blog do Blogspot no Brasil, de acordo com a opinião dos leitores.

Para participar dessa votação, você deve publicar um post indicando até três blogs que estejam hospedados no Blogspot que na sua opinião sejam os melhores do Brasil, junto com uma pequena descrição de cada um. Para que seus votos sejam contabilizados, você deve apontar um link para este post, que possui mais informações sobre o concurso/meme. A duração do concurso é de 16/07 a 16/08.
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Então é isso. Os meus indicados são:

Photobucket
Calça Jeans e Havaianas: Que Sócrates, Platão ou Aristóteles que nada. O Davi Arloy é o meu filósofo preferido. Sabem porque? Porque ele fala a mínha língua! Já fiz este comentário lá e basta ler um texto do blog para comprovar o que digo. A primeira vez que fui lá acabei lendo TODOS os posts de uma sentada só.


Cólica Mental: Imaginem uma garota inteligente e sarcástica. Um ser humano fantástico com poderes titânicos. A Nathália tem o dom de fazer a gente ficar com a barriga doendo de tanto rir a cada frase que escreve. Sem meias palavras, vai direto ao ponto e sempre surpreende com seu humor ácido e certeiro.

Ai, meus sais!
Ai, Meus Sais: Mais do que um link no meu blogroll, a Juliana já virou uma amiga, com direito a barzinho, cerveja e conversa jogada fora na mesa. Dona de um dos blogs mais bonitos que conheço, tudo arquitetado por ela mesma. E quando a moça resolve gritar acaba escrevendo uns textos que são verdadeiros "tapas na cara".

Pronto. Estes para mim são os melhores Blogspot's do Brasil.


Galera, hoje eu estou de novo lá no Sofá do Amigão. Gostaria de pedir que não me deixassem lá falando sozinho e fossem me visitar. Para quem não sabe o caminho, basta me acompanhar. Vem comigo, é por aqui.


Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Capítulo 26 - FATALIDADE (3ª Parte - Final)

Continue acompanhando A Melhor Novela de Todos os Tempos do Último Verão.
Não acompanha a trama? Sem problemas. Confira o post anterior!

O cortejo fúnebre seguia a passos lentos pelas alamedas do cemitério São João Batista, uma imensa e melancólica fileira de pessoas de rostos tristes, apagados e cheios de lágrimas.Era uma tarde triste e extremamente quente. Em meio às pessoas, o caixão, carregado por quatro homens, reluzia ao sol ardente do verão. Estava um calor infernal, o mormaço rescendendo sobre os túmulos, dando um aspecto ainda mais angustiante ao cemitério. Erguendo-se imponente no azul claríssimo do céu, a imagem do Cristo Redentor resplandecia no alto do Corcovado, abençoando de braços abertos a Cidade Maravilhosa.

Estavam ali, caminhando tristemente no cortejo, todas as pessoas que fizeram parte da vida de Cássio, os amigos de colégio, os companheiros de pegas e baladas, os familiares, a mãe toda vestida de preto, torrando ao sol, se abanando sem parar e chorando compulsivamente, o pai gordo que se arrastava com a careca pingando de suor, arfando sem fôlego, o irmão, se deixando levar quieto e ausente, o amigo inseparável, Amon-Rá, no dia mais triste de sua vida, enfim, todas as pessoas que o amavam e o queriam bem vieram dar-lhe o último adeus.
O cortejo enfim chegou ao local onde o corpo seria enterrado. Todos pararam e se ajuntaram, em silêncio, enquanto o padre iniciava o sermão, todos atentos à cerimônia:
- Queridos irmãos, estamos aqui presentes para celebrar a memória deste jovem admirável que acaba de nos deixar. Se esta foi a vontade do Pai, que assim seja, pois nem mesmo uma folha se desprende de uma árvore sem o Seu consentimento...
Começou, então, um vento forte repentino, fazendo as árvores farfalharem, levantando poeira, as folhas secas do chão voando em círculos. O sol escaldante foi encoberto por uma pesada nuvem que anunciava chuva próxima, jogando uma infinita sombra sobre o cemitério.
Era a primeira vez que Amon-Rá sentia a terrível dor de perder um ente querido. O rapaz, sempre com os olhos marejados, olhava para o caixão fechado, ali estava o seu amigo mais querido, o Cássio alegre, louco, aventureiro, destemido, namorador e alto astral, agora inerte, sem vida, em silêncio eterno. A última imagem do amigo lhe veio à mente, entrando no carro, pronto para mais uma corrida, uma corrida fatal em direção à morte. No velório, o caixão não fora aberto, o corpo estava em grande parte carbonizado e Amon-Rá sabia que não suportaria ver a cena.
O que mais lhe doía, e isso talvez o deixasse com o remorso na alma para o resto de sua vida, era o fato de o amigo ter ido embora sem o perdoar. Morreu antes que ele tivesse a chance de explicar o motivo da briga entre os dois, pedir o seu perdão e reatar aquele laço de amizade. Que brincadeira de mau gosto do Destino! Agora que tudo parecia estar bem, que estava se sentindo feliz por ter seu amor de volta e estava prestes a se entender com o amigo, acontece essa terrível e dolorosa fatalidade. Como se a felicidade nunca pudesse ser completa, como se ela fosse apenas uma busca incessante que a gente vai alcançando aos poucos, a conta-gotas, mas nunca completamente. Reconquistou seu grande amor e perdeu para sempre seu único amigo. Que troca injusta e cruel a vida lhe impôs.
Amon-Rá não tirava Cássio da memória um instante. Todos os momentos junto ao amigo lhe passavam em flashes como num filme imaginário. Aquela vida vivida com toda a intensidade, seu jeito irreverente de encarar as coisas, sempre com um humor contagiante, o gosto por emoções fortes e suas atitudes inconseqüentes, a alegria que fazia parte de seu espírito, sua essência permaneceria eterna na lembrança de cada um. Cássio era uma pessoa que gostava de viver, que amava a Vida. Viveu até o último momento fazendo tudo o que gostava e desse na telha, correndo, surfando, se arriscando, curtindo tudo o que pudesse, fazendo sexo sem compromisso, gozando de sua virilidade e se drogando. Talvez fosse justamente por essa sede insaciável de viver que o amigo tivera uma vida tão breve, pensava Amon-Rá em seu profundo silêncio. Talvez ele tivesse exagerado em seus atos, sendo imprudente demais no presente e se esquecendo de que havia um futuro pela frente. Então abusou de tudo que podia e abusou até demais do que não podia. Abusou da sorte, correndo toda semana nos arriscados pegas da madrugada sem nenhuma precaução, movido apenas pela adrenalina espalhada no sangue, pela paixão enlouquecida à velocidade; abusou de seu próprio corpo, ferindo-o e injetando substâncias tóxicas em suas veias, aspirando, fumando e ingerindo componentes que destruiriam gradativamente sua memória e seu corpo. Abusou, e muito,das drogas.
Somente agora Amon-Rá percebia isso. A morte do amigo parecia ter lhe aberto os olhos para a verdadeira realidade. Agora ele enxergava claramente a que caminho trágico levava esse mundo ilusório, fantasioso e traiçoeiro das drogas. Percebia agora que a vida de uma pessoa é extremamente limitada e temos que aprender a não ultrapassar esses limites. O amigo estava completamente drogado enquanto dirigia aquele carro e foram as drogas que o levaram à morte. Agora sim Amon-Rá sabia que era preciso parar, na verdade não deveria nunca ter começado, se livraria de uma vez por todas dessas malditas porcarias antes que também acabasse cavando sua própria cova. Ali, naquele momento, em memória do amigo, jurou para si mesmo que nunca mais usaria drogas na vida.
A voz do padre o despertou, encerrando o sermão:
- ...e que sua alma repouse tranqüila e serena na santa paz do Senhor. Amém!
Amém!
Suspenderam o caixão, prontos para baixá-lo na sepultura. A desesperada mãe desatou uma nova choradeira incontida, se afogando nas próprias lágrimas. Eduardo Palladino tentava confortar os pobres pais angustiados. O irmão Cassiano, chorando, deu um beijo de leve no caixão e murmurou emocionado:
- Vá com Deus, campeão!
Amon-Rá também não se conteve. Chorava amargamente, botando pra fora toda a dor que sentia, recebendo o abraço protetor de Samantha, ali bem juntinho de si.
O caixão bateu pesadamente no fundo do buraco e os homens com as pás nas mãos começaram seu trabalho, cobrindo de terra aquele ser vibrante, extraordinário e surpreendente que ia embora deste mundo sem chegar aos vinte anos.
Nesse momento, um raio, um trovão e a chuva desabou. Chovia uma chuva gostosa e fresca, a primeira depois de tantos dias de verão intenso e calor insuportável, uma chuva vívida e revigorante, refrescando os corpos suados e o ar abafado, saciando a sede das árvores, lavando os túmulos empoeirados e fazendo subir o cheiro agradável de terra molhada.
Amon-Rá observava o caixão sendo engolido pela terra, levando parte de sua vida com ele, levando o cara mais alegre e admirável que conhecera, o grande campeão dos pegas do Recreio, o ídolo de marmanjos e gatinhas, o Relâmpago da Madrugada tinha se apagado para sempre. Amon-Rá não se conformava, era doloroso demais, sua vida jamais seria a mesma. Nunca mais veria seu amigo novamente.
Não suportava mais, precisava sair dali imediatamente.
- Vamos embora – disse para Samantha.
- Vamos.
E se retiraram sem serem notados, caminhando abraçados pelas veredas do cemitério sob uma gostosa chuva de verão.

Continua 2ª Feira
® Obra registrada EDA/FBN. Proibida a reprodução. Respeite o direito autoral.

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

O autor da realidade absurda

Um homem que acorda certa manhã e percebe que se transformou num gigantesco inseto; outro que é preso e submetido a um longo e incompreensível processo por um crime não revelado; e um trabalhador que é chamado por um conde de um castelo para prestar seus serviços, mas, por mais que tente, jamais consegue entrar no castelo, ficando do lado de fora o tempo todo.

Estes são os pontos de partida dos três livros que formam a trilogia mais famosa de Franz Kafka: A Metamorfose, O Processo e O Castelo, respectivamente.
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Muitos críticos e estudiosos tentam explicar a obra de Kafka, revelar seus significados, mas nenhum deles me convence. Porque o verdadeiro prazer que sinto é em pegar o livro e simplesmente ler, me deixar levar pela história que o autor tem pra contar, sem ficar buscando explicações coerentes para aquilo que foi escrito. Até porque, especialmente na obra de Kafka, coerência não é regra. Ele é o rei do absurdo. É um autor que soube retratar com realismo todo o absurdo da nossa existência, com verdadeiras imersões psicológicas, nos fazendo parar estarrecidos diante da bizarrice que é a vida.
Toda a humanidade deveria ler Franz Kafka.

“Existe uma meta, mas não há caminho; o que chamamos caminho não passa de hesitação.”

Capítulo 26 - FATALIDADE (2ª Parte)

Continue acompanhando A Melhor Novela de Todos os Tempos do Último Verão.

Tainaçã ainda tentava persuadir Samantha, sem desconfiar de que ela já sabia de toda a verdade...E Tainá continuava a falar sem parar, glorificando as qualidades de Cássio, até que ela se calou e ficou séria subitamente, olhando para algo atrás de Samantha.
- Engraçado... Essa moto que você tá encostada não me é estranha. Essa não é a moto do...
- Do meu namorado!
Tainaçã empalideceu.
- Do seu... namorado? Como assim? Esta aí é a moto do Amon-Rá – gaguejava ela, embaraçada. – Peraí, eu não tô entendendo...
- Ah, não? Pois agora tu vai entender direitinho, sua vagabunda!
Tainaçã estremeceu com a tremenda bordoada que levou na cara. Atônita, encarou a rival com um olhar desesperado, a face vermelha pegando fogo com a marca dos dedos da outra, compreendendo que sua farsa tinha chegado ao fim.
- Queísso, Samantha? Por que você fez isso? Ficou louca?
- Tô louca, sim. Louca pra dar o que você merece, sua psicopata. Toma!
Outro tabefe dado com vontade e um filete de sangue brotava de sua cara onde ficara a marca da unha de Samantha. Agora era hora do embate das rivais, a hora da verdade:
- Isso foi por tudo que você fez para me separar do Amon-Rá, por toda a sua sujeirada, sua cachorrice sem limites, sua ordinária! Você achou que ia se dar bem até o final, né queridinha? Mas em toda novela o bem sempre vence e a vilã acaba pagando por todas as suas maldades. A vida não é muito diferente das novelas e agora é a sua vez de levar uma boa lição.
Vendo que não adiantava mais fingir, Tainaçã deixou a máscara cair:
- Como você é burra, Samantha, sua anta. Você caiu feito uma patinha no meu plano e eu me diverti à beça com as suas crises de mulher mal amada, largada pelo bofe – em seu rosto agressivo surgiu um sorrisinho sarcástico. – Não me arrependo nem um pouco e tudo o que fiz faria novamente. Sabe por quê? Porque eu amo o Amon-Rá como nunca ninguém será capaz de amar, nem mesmo você, e se eu fiz tantas loucuras é por que eu sou completamente alucinada por ele. Fiz tudo por amor, movida pela paixão que sinto por aquele homem. Eu é que devo ficar com ele e não pense que eu desisti não, tá? Eu não vou descansar enquanto não te esmagar feito o inseto nojento que você é e ter o Amonzinho todinho só pra mim.
- Ah, é? Pois então vamos ver quem é que vai esmagar quem!E Samantha, num acesso de fúria, partiu pra cima da rival despejando toda a sua raiva, bombardeando-a com golpes pra todo lado, enquanto a outra se debatia tentando se defender, sem chance de revidar. Tainaçã, aos gritos, levava vários socos na cara, o nariz já pingando sangue, o olho roxo e a blusa rasgada. Assim que pôde, tentou fugir e sair correndo, mas Samantha agarrou-a pelos cabelos e puxou com tanta força que ela caiu no chão, em desesperadas súplicas:
- Ai, larga! Tá doendo!
- Tá doendo, tá sua safada? Então vê se isso dói.
E puxou o cabelo da garota que estava preso em sua mão. A outra de um berro de dor e viu, horrorizada, um tufo de seu cabelo na mão da rival.
- Meu cabelo, sua maldita! – lamentou-se ela, passando a mão no buraco careca que ficara em sua cabeça.
- Você se divertiu muito com meu sofrimento, não foi mesmo? Sofrimento que você provocou. Agora é minha vez de me divertir um pouco com você.
Samantha, com o peso de seu corpo sobre a inimiga, se vingava de tudo pelo que havia passado, distribuía com vontade sucessivos tapas na cara da garota, explodindo todo o seu ódio, fazendo sua justiça com as próprias mãos.
Tainaçã apanhou muito, levou uma surra memorável, e só foi salva das garras da inimiga quando, do meio dos curiosos, surgiu gente pra apartar. Amon-Rá e Jota surgiram nessa hora e a briga chegou ao fim. Aturdido com a cena, Amon-Rá tirou Samantha de cima da outra, tentando conter sua ira. Assim que viu Amon-Rá, Tainaçã se levantou, suja, descabelada e em frangalhos e correu para junto do rapaz, abraçando-o chorando:
- Ai, Amonzinho, que bom que você chegou pra me salvar. Olha só o que essa anta fez comigo, estou toda machucada. Você não vai mais deixar ela me fazer nenhum mal, vai?
- Dá um tempo, Tainá – reprimiu o rapaz afastando-a. – Você bem que fez por merecer, agora não vem dar uma de vítima. O que você fez foi uma tremenda de uma sacanagem.
- Só fiz isso tudo por que eu te amo. Será que você não entende? Um coração apaixonado faz loucuras inimagináveis. Tudo o que eu queria era que você ficasse comigo e desse um pé na bunda dessa vadia. Ela não te merece, você foi feito pra mim. Pra mim, ouviu bem?
- Vadia é o cacete, sua desgraçada – gritou Samantha avançando novamente pra cima da outra, sendo contida por Amon-Rá:
- Chega, Samantha. Acabou. Ela já teve o que merecia. Tenho certeza de que agora ela vai nos deixar em paz. Não é mesmo, Tainá?
Tainaçã não respondeu, apenas lançou um olhar fulminante para a rival, no qual foi igualmente retribuída. Nisso chegou Cindy, que levou um baita susto ao ver a amiga naquele estado lastimável:
- Crendeuspai! O que aconteceu com você, Tainá?
- Levou uma surra irada. Essa vai ficar na memória da galera – respondeu Jota, rindo.
Cindy então percebeu a fúria de Samantha e Amon-Rá e acabou deduzindo o que acontecera. Chegou perto da amiga e cochichou em seu ouvido:
- Não me diga que eles descobriram tudo...
Pelo olhar de Tainá, não precisava dizer nada.
- Eu sabia que isso ia dar merda – disse Cindy. – Eu bem que tentei te alertar, mas você não me ouve. Nunca vi alguém tão cabeça-dura!
- Então essa daí também sabia de tudo – bufou Samantha. – Estão mancomunadas. São duas safadas mesmo. Uma dupla de cadelas vagabundas.
- Peralá, queridinha, olha bem como tu fala comigo... – ia reagindo Cindy.
- Cadelas, vagabundas, safadas e ridículas. É o que vocês são!
- Acabou o barraco, gente – ordenou Amon-Rá. – Chega de escândalo por hoje.
- Vem, amiga, vamos embora – chamou Cindy amparando Tainaçã. – Vamos pra minha casa que eu cuido dos seus ferimentos.
E as duas foram saindo, abrindo passagem no meio do povo, Tainaçã se lamentando pelas marcas no rosto, as roupas rasgadas e o cabelo perdido.
- Ih, olha lá, galera – anunciou Jota. – A corrida vai começar.
A multidão que se espalhava por toda a pista foi se ajuntando nas calçadas, parecendo uma boiada, deixando a pista livre para os carros fazerem seu espetáculo de pura emoção, som e velocidade.
No meio de toda aquela gente, Amon-Rá viu seu amigo Cássio se preparando para a competição lá no meio da pista, dizendo qualquer coisa para o adversário. Mesmo de longe, Amon podia perceber que havia algo de errado com Cássio, sua aparência denunciava que ele não estava bem e Amon sentiu um aperto por dentro, o mesmo que sentira momentos antes. O amigo estava extremamente drogado! Esse novo aperto no peito, pensou Amon-Rá, devia ser pelo medo de que o amigo não o perdoasse, medo de perder para sempre seu grande e único amigo, o irmão que nunca teve, a quem ele amava do fundo de seu coração. Reconhecia que Cássio tinha todo o direito de estar magoado com ele, afinal ele duvidara de sua lealdade, colocara em jogo uma amizade de uma vida inteira, e agora precisava mais que tudo se desculpar, fazer as pazes com seu amigo.
Sem poder esperar mais um minuto, Amon-Rá foi abrindo passagem no meio do povo, se esforçando para se aproximar de Cássio, chegar até onde ele estava para conversar com ele e recuperar sua amizade. Mas, antes que conseguisse chegar até a pista, viu o amigo pulando pra dentro do carro e ouviu o tiro de largada. Pronto. Começou a corrida. Agora teria de esperar a partida terminar para bater aquele papo com o velho parceiro, esperava sinceramente que se entendessem e tudo voltasse a ser como sempre fora.
A multidão enlouquecida explodia em gritos, vaias e vivas para os dois carros voando na pista. Para desespero de muitos, o Golzinho preto do Relâmpago da Madrugada estava bem atrás do carro do adversário, que por sua vez levava uma boa vantagem. Muitos perceberam que Cássio, em vez de se concentrar na linha de chegada, parecia estar querendo fazer um show de exibicionismo gratuito, fazendo perigosas e arriscadas manobras com o carro, rodopiando na pista e cantando pneus, espalhando o cheiro da borracha queimada pelo ar e virando bruscamente em cada curva, fazendo o carro correr sobre duas rodas. Os rapazes davam berros de apoio ao ídolo e as meninas davam gritinhos histéricos, descontroladas:
- Acelera, Relâmpago!
- Ai... Ele é o máximo!
Até que, parecendo animar-se com os gritos de incentivo da galera, o Relâmpago despertou na madrugada e riscou o ar como um flash. Disparou espetacularmente na frente do adversário, a multidão num tremendo alvoroço. Voava veloz rumo à linha de chegada, novamente o Relâmpago da Madrugada seria o campeão da noite, o grande ídolo dos pegas do Recreio provava ser sempre o melhor, cada vez mais perto da chegada e, na última virada, um barulho ensurdecedor de pneus derrapando e um baque surdo que estremeceu a tudo e a todos. Foi um impacto violento! O Golzinho preto perdendo a direção e chocando-se contra um poste, ficando totalmente destruído. Gritos. Desespero. Pânico. Um clarão repentino vindo do céu. Um curto-circuito na rede elétrica e todas as luzes da rua se apagam. Breu total. No meio da escuridão, todos ouvem uma grande explosão e seus rostos aterrorizados são clareados pela luz incandescente do Golzinho preto totalmente em chamas.
Continua 6ª Feira.

® Obra registrada EDA/FBN. Proibida a reprodução. Respeite o direito autoral.